sábado, 3 de setembro de 2011

FORMAÇÃO

Formação

José Douglas Alves dos Santos
Coordenador Geral - DALEPe

      Hoje, os professores ocupam um número considerável de vagas no mercado de trabalho. E, diante dos últimos avanços humanos, podemos dizer que somos considerados uma classe de importância inigualável ao desenvolvimento de uma sociedade. Porém, apesar de toda essa relevância social, no Brasil ainda resiste a idéia de investir adequadamente a esses trabalhadores – os trabalhadores que formam todos os demais trabalhadores formais.
      Sem professores, não existiriam médicos, juízes, diplomatas, promotores, executivos, administradores, e inúmeros outros profissionais que não caberiam em minha fraca memória.
      Isso significa que nós, professores – principalmente os pedagogos –, somos elementos fundamentais na esfera social. Partindo para uma breve apresentação do processo formativo, falarei sobre algumas questões pertinentes à formação em Pedagogia.
      Sobre a constância de mulheres no curso, Elba Siqueira Barreto (2010) diz que isso se deve ao fato de que, inicialmente, a representação do trabalho docente nada mais era do que uma prorrogação das funções maternas. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2006) apontou que 98% dos profissionais que atuam na educação infantil são mulheres. Um número quase absoluto.
      Esse número decresce na medida em que se elevam os níveis de escolarização (88,3% no ensino fundamental e 67% no ensino médio). Como tal, temos também uma redução no salário: enquanto a média do pedagogo que ensina os primeiros anos é de R$ 661,00, a média do salário de quem ensina no ensino fundamental é de R$ 873,00 e no médio de R$ 927,00.
      No Brasil, uma quantidade significativa de professores vive em condições de pobreza. Logo, ganhar pouco mais que um salário mínimo é algo a se ter como uma benção ou até mesmo como um milagre, em certos casos.
      Só que o professor, nesse país em que vivemos, trabalha muito mais do que vale seu salário. O poder público parece não ver que além da docência, precisamos ainda ter noções básicas de psicologia, de yoga, de medicina, de terapia, de nutrição, de segurança...
      Acontece que nossa formação mal nos prepara para o mínimo, que é o ensino. A Fundação Carlos Chagas com o apoio da Fundação Vitor Civita (Gatti, Nunes, 2008) examinou a estrutura curricular de 165 cursos presenciais de licenciaturas, sendo 71 de Pedagogia. E de acordo com o estudo, as disciplinas que propiciam uma melhor formação do “que” e do “como” ensinar giram em torno de 30%, mas apenas de forma muito incipiente, elementar, não indo a fundo na questão.
     Parafraseando Elba Siqueira Barreto (2010), “eu diria que nunca foi tão difícil ser professor como nos tempos atuais.” (p. 441). O professor precisa estar apto a passar por todos os tipos de situações para não enlouquecer ou desistir de sua profissão. Segundo Farber (1991) os professores sentem-se emocional e fisicamente exaustos, estão freqüentemente irritados, ansiosos, com raiva ou tristes. E Sandra Carlotto (2010) nos diz que “O professor mostra-se autodepreciativo e arrependido de ingressar na profissão, fantasiando ou planejando seriamente abandoná-la.” (p. 24).
      Não pretendo assustar os calouros ingressantes no curso ou aqueles que desejam aceitar o desafio de ser professor falando sobre tudo isso. Mas para chegar ao ensinar-e-aprender com sentido como nos coloca Moacir Gadotti (2003), precisamos saber sobre nossas condições e nossa realidade. Não adianta sonhar com a cobertura vivendo debaixo de pontes.
      Precisamos ter com clareza a resposta para certas perguntas (que nós mesmos estamos constantemente nos fazendo), como por exemplo: Por que um dia eu quis me tornar professor? O que me levou a escolher essa profissão e não outra? Porque insisto em permanecer nela?
      Pesquisas mostram que, mesmo hoje, ainda persiste a idéia de fazer Pedagogia ou outra licenciatura por vocação. Devemos ser e continuar professores(as) não por vocação, mas por prazer, prazer em ensinar, prazer em aprender, prazer pelo trabalho. Como afirma Manoel Fernandes Neto (2010): “aos que optaram por ser e/ou continuar professores por prazer, a vida na profissão é uma celebração diária, pessoal e coletiva, que transforma cada ato, mesmo nos dias mais difíceis, em uma reafirmação da escolha feita”. (p. 258).
      Só que também devemos nos atentar a todos os discursos, pois por mais prazerosa que possa ser uma profissão, isso não nos garante sobrevivência – tanto a nossa quanto a dos nossos filhos. E o que fazer para não abandonar a profissão? Lutar. Lutar individualmente e, principalmente, lutar coletivamente. Pois sozinhos jamais conseguiremos ter sucesso além de nosso umbigo. E ser professor é também isso, não se acomodar apenas com a situação individual, sua, mas com a de todos nós, que fazemos um trabalho comum, que vivemos uma vida comum.
      Vivemos num país onde muitos ganham o insuficiente para sobreviver e para viver por mês – por sobreviver entendo que seja permanecer vivo, não morrer, e por viver entendo que seja aproveitar dos bens culturais e da vida no qual todos deveriam ter o prazer.
      Entretanto, quantos políticos ganham mais do que o salário de dez professores juntos? Isso é justo? Professor trabalha nas piores condições e tem também os piores salários? Por isso a importância de estar politicamente consciente do mundo em que se vive.
      Cabe a cada um dos novos estudantes que entram nos cursos de Pedagogia e demais licenciaturas, lutar e resistir às forças brutais que controlam os rumos de nossa sociedade. Todos nós, juntos, devemos nos deter à Pedagogia da Solidariedade, à Pedagogia do Respeito, à Pedagogia da Transformação Social. Respeitem nossas crianças, jovens e adultos, escutemos o que todos eles têm a nos dizer. Isso nos aproxima, como bem já escreveu Paulo Freire e Miguel Arroyo, da sempre velha e sempre nova tarefa da pedagogia: humanizar.


Referências:

ARROYO, Miguel G. Ofício de mestre: imagens e auto-imagens. 9. Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.
BARRETI, Elba Siqueira de Sá. Trabalho docente e modelos de formação: velhos e novos embates e representações. Cadernos de Pesquisa. v. 40, n. 140, p. 427-443, maio/ago. 2010.
CARLOTTO, Marly Sandra. A síndrome de burnout e o trabalho docente. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 7, n. 1, p. 21-29, jan/jun. 2002.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
GADOTTI, Moacir. Boniteza de um sonho: ensinar-e-aprender com sentido. Novo Hamburgo: Feevale, 2003.
NETO, Manoel Fernandes de Sousa. O ofício, a oficina e a profissão: reflexões sobre o lugar social do professor. Cad. Cedes, Campinas, vol. 25, n. 66, p. 249-259, maio/ago, 2005.

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